top of page

Sabrina Sato e o desnecessário uso de penas animais em desfiles de Carnaval

Não é de hoje que a cobrança por consciência com o futuro do planeta vem moldando a forma como nos relacionamos com a moda em geral. A procura por empresas com ações sócio-ambientais foi uma das principais mudanças da última década, e vem impactando a forma como produzimos e consumimos.


No Carnaval não é diferente, e o debate sobre o uso do glitter tradicional, feito com microplástico e alumínio, invadiu bloquinhos e avenidas, fazendo com que hoje a compra de opções biodegradáveis seja mais fácil do que era há dois anos, quando o assunto emergiu nas redes sociais. Marcas como a carioca Shock já produzem opções que não agridem o meio ambiente, são veganas e já vêm com proteção solar!


Outra cobrança que vem crescendo no período de folia diz respeito às fantasias utilizadas por Escolas de Samba. As penas de animais sempre foram largamente utilizadas, vistas principalmente em luxuosas fantasias de Rainhas da Bateria. A cobrança pela substituição da pena de aves é crescente e já levou à criação de um projeto de lei proibindo o uso de penas e plumas de aves.


Enquanto a substituição das penas animais infelizmente não toma conta da consciência das principais escolas de samba, temos uma musa que já virou referência em Fantasias sem crueldade e com designs incríveis. Estamos falando de Sabrina Sato, Rainha da Gaviões da Fiel e da Unidos da Vila Izabel.


A história da apresentadora com o Carnaval é longa e um belo exemplo da real atuação de uma Rainha da Bateria, mas hoje quero focar nas transformações dos últimos anos que culminaram na escolha da fantasia do último sábado dia 22.


Em 2017, graças a um atraso que impediu Sabrina de vestir a fantasia completa, a musa entrou na avenida pela primeira vez sem o famoso e característico costeiro usado pela maioria das Rainhas que vão à frente da bateria. Apesar de ter sido consequência de um contratempo, a fantasia agradou ao público mesmo sem o adorno que costuma ser o mais chamativo durante o desfile, tendo inclusive rendido essa matéria na Vogue Brasil onde ganhou o título de musa do Carnaval 2017.


Essa foi a primeira vez que a apresentadora desfilou sem nenhuma pena. Apesar disso, o restante do traje trazia MUITO couro, então ainda não podemos dizer que foi um avanço completo, mesmo porque a ausência das penas foi acidental - o costeiro com 6 mil penas infelizmente já estava feito - mas foi um passo importante para entender que a falta do acessório não necessariamente traria uma repercussão negativa


Sabrina está na avenida, com braços abertos e um sorriso no rosto. usá calcinha e sutiã em couro com detalhes azul e branco, uma ombreira, luvas e chapéu característico de cangaceiros
Em 2017, com metade da fantasia de cangaceira

No ano seguinte, a Rainha não usou nenhuma pena em nenhuma das duas Escolas em que desfila. Na Gaviões, a fantasia trazia um tema marinho - o que pode ter influenciado a decisão de não usar penas - e foi feita com o mesmo material de bóias espaguete utilizadas em piscinas. Apesar disso, toda a estrutura tinha ferro por baixo, o que resultou em uma das costeiras mais pesadas que ela já teve que usar. Mesmo assim, a famosa afirmou que pela Escola valia a pena o sacrifício (palavra bem peculiar a ser usada já que estamos falando de alguém que usou penas arrancadas de aves vivas por um bom tempo).



Sabrina na avenida, sambando, usando um body azul com estrelas do mar nos seios e adorno de cabeça e costeira que lembram corais marinhos
Em 2018, á frente da Gaviões da Fiel, com temática marinha e costeira de ferro com espuma (polietileno expandido)

Já na Unidos da Vila Izabel, o foco da temática era a luz e a fantasia entregou o prometido com muito dourado e uma costeira que dava impressão de ser uma aura, como o efeito de uma chama acesa ao redor de uma vela. A fantasia foi aplaudida por defensores dos direitos animais e usada como exemplo para que outras Escolas se abram às possibilidades de fantasias sem crueldade.



Sabrina na avenida, com um body todo iluminado, ombreira e coroa douradas e costeira dourada com vários palitos compridos formando um círculo ao redor da Rainha
Em 2018 pela Unidos da Vila Izabel, a temática de "luz" veio com um material mais rígido.

Infelizmente nossa retrospectiva é quebrada em 2019, ano em que Sabrina voltou a usar penas em ambos os desfiles. Nesse ano o foco das reportagens mirou no fato de que a apresentadora ainda estava amamentando no período, e por isso teve fantasias adaptadas para evitar vazamentos (mas poxa, uma coisa não anula a outra né...).


E finalmente chegamos ao Carnaval de 2020, quando Sabrina virou trend no Twitter por sua nova fantasia sem penas, com um design moderno e que não ficou atrás no quesito beleza. A inspiração veio de Julieta, personagem de Shakespeare.


Sabrina na avenida, usando um body com muito brilho, adorno circular na cabeça e costeira do mesmo material, fazendo um formato circular quase como uma gola gigante ao redor do pescoço
Em 2020, pela Gaviões da Fiel, incorporando a Julieta de Shakespeare

É inegável que ainda temos muito o que avançar no que diz respeito ao especismo e a crueldade animal - dentro e fora do Carnaval - mas eu não consegui deixar passar batido a importância de ter uma das celebridades mais famosas e influentes do Carnaval quebrando a crença de que penas e plumas são indispensáveis para as fantasias da avenida. Espero que possamos ver mais avanços nessa área nesse e em outros Carnavais.


Comentários


bottom of page